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Memória ilusionista Enviar por e-mail
Crônicas - Crônicas
Escrito por: mayf
mayf

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Qui, 18 de Março de 2010 16:04

Durante boa parte da minha infância havia, junto aos pratinhos prateados com desenhos estranhos de hipopótamos dançantes e outras nostalgias, uma felicidade ingênua sob a forma de um produto bobo: o iogurte que virava sorvete. Eu posso me lembrar dele com uma clareza quase intocável. Seu rosa claro e leitoso, o formato arredondado e o pequeno palito colorido que a gente usava para enfiar no iogurte e - depois de algumas horas no congelador - transformá-lo em sorvete. Aquilo me parecia tão mágico e inimaginável. Lembro de correr para o carrinho de compras sempre que minha mãe chegava do mercado para pegar todos, lembro de ajeitar o palito meticulosamente e lembro de ir verificar, basicamente de meia em meia hora, se a mágica já havia acontecido.

A lembrança de um iogurte que virava sorvete, durante anos, foi algo aconchegante dentro da minha cabeça. E sempre me perguntei o que teria acontecido a ele que não se via mais em mercado algum. Procurei por todos e, semana atrás de semana, vasculhei as prateleiras de iogurte em busca daquele que me soava quase inatingível. Tão mágico, singular, inimaginável. Meu iogurte onírico. E achei. Quando já tinha desistido, achei. O formato das minhas lembranças, a cor pálida, a textura. Feito criança, corri até a geladeira para encaixar os palitos coloridos em todos e deixar a mágica acontecer, após tantos anos, de novo. Mas - surpresa - quando pronto, o sorvete era só isso. Um sorvete de iogurte. Com aquele gosto de morango meio artificial, a consistência congelada que em nada lembrava a de um sorvete de verdade, o sabor esquálido. Um bom iogurte, não se pode negar. E uma idéia maravilhosa, eu devo admitir. Mas, afinal, aonde está aquele que ocupou meu pedestal durante tantos anos? Ele não existe.

Quase irônico isso, meu iogurte preferido nunca existiu. Quem existiu foi a lembrança idealizada dele. Então é assim? É assim na vida? A gente toma o iogurte - que não passa disso, por mais gostoso que seja - e ele se junta às lembranças da época; ao ambiente da casa, à rotina cheirosa, às memórias quentinhas. E nós sentimos saudade daquele sabor que era só mais um, mas que aumenta de tamanho e cor quando aliado à nostalgia? Eu admito que cheguei a questionar a qualidade dele. Passaram-se tantos anos, quem poderia me garantir que o fabricaram da mesma forma? Mas eu sei que sim. Pois sei que o melhor iogurte do mundo nunca poderia alcançar o que morava dentro da minha memória. Ele era meu. Inventado, modificado, colorido. Meu iogurte que não cheirava a iogurte normal, mas sim a casa de praia, verão, rede, varanda e infância. Que não tinha o cor de rosa normal, mas a cor leve da ingenuidade e da inocência, da felicidade pura vinda de um simples iogurte que vira sorvete. A mágica nunca funcionou dentro do congelador, aquele era só um eletrodoméstico funcionando com decência. A mágica era minha, era a mágica dos meus 6 anos de idade, da transformação iminente, da flor nascendo e da lagarta virando borboleta. E eu - agora já tão cética e um pouco amarga, já com algumas rugas de cansaço e com a ingenuidade pisoteada pelo asfalto - eu não poderia recriar isso. No máximo, imitar um truque de ilusionista, mas já estava cansada demais pra acreditar.

E talvez seja assim mesmo. Tomar o iogurte aos vinte anos de idade foi um erro; ele nunca poderia ser tão doce quanto foi antes. E como é que ele poderia ser? Se temos mentes tão traiçoeiras que acreditamos em passados mais acesos quando esses são passados. Se acreditamos que fomos mais felizes do que realmente fomos e condenamos o presente a uma penumbra que depois, quando ele deixa de ser presente, se acende. Meu iogurte irreal continua em mim. Lembrança aconchegante que me remete a uma magia há muito tempo já desvendada mas ainda assim intacta. Eu sei que ele nunca teve esse sabor, mas que sabor ele teve afinal? Eu também não saberia dizer. Talvez um gosto de nostalgia onírica e - como toda nostalgia - tendenciosa.



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Memória ilusionista
Qui, 18 de Março de 2010

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Última atualização em Sex, 19 de Março de 2010 09:01
 
Comentários (2)
  • Laurindo
    avatar
    Geografia da memória! Deve existir uma explicação científica mas, com certeza, é muito tediosa e mataria, por certo, a lembrança. Diria que somos apenas memória, sensações, que o cérebro armazena e que nos permite, através de tentativa e erro, guiarmo-nos por este labirinto habitado de dejá-vus, passados e futuros e, de vez em quando, conseguimos formar uma imagem completa desta imensidão de fragmentos que denominamos eu.
  • Abreu
    avatar
    A memória, traiçoeira, sempre a nos remeter ao que nos satisfaz...
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