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Quarta, 08 Set 2010
Escrito por: Luciene_Aguiar
Luciene_Aguiar

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A sesta num dia de sol

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Maria olhava para aquele ambiente amarelo-cinza a sua frente. Passava um pouco do meio dia e ela sentia aquela preguiça que sempre lhe tomava o corpo depois do almoço. Estava sentada, como sempre fazia naquele horário, debaixo de um velho pé de cedro em frente à sua casa. O tempo estava quente e abafado, mas vez ou outra a brisa balançava as altas galhas da árvore e lhe refrescava o calor. A claridade do espaço amarelo-cinza agredia-lhe os olhos. Não se via nada verde. Os poucos tons de ocre esverdeado que iam substituindo o verde deixado pela chuva, também já haviam sido devorados pelo amarelo-cinza. Junto com a sensação de exaustão e abandono causada por essa tonalidade e pela temperatura quente e abafada, Maria sentia uma espécie de secura e esvaziamento por dentro que lhe davam a impressão de que a qualquer momento ela iria deixar de existir. Olhou o céu. O azul pendia mais pro cinza-arroxeado: uma cor intensa, agressiva e opressora. Nenhuma nuvem. A claridade e intensidade daquela cor parada, morta lhe fizeram franzir os olhos. Maria bocejou. Suas pálpebras pesavam e a agradável sonolência dominava cada vez mais o seu corpo. Olhou e sorriu para os pequenos arbustos secos e retorcidos que se espalhavam pelo terreiro de sua casa.
Vez ou outra ouvia os movimentos da sua mãe dentro de casa. Naquele horário do dia Maria sentia-se quase particularmente feliz. Era um momento que ninguém a perturbava. Era um momento em que ela podia ficar sozinha, dedicar-se a si mesma e remexer em suas memórias em suas idéias e em seus sonhos. Era um momento só seu onde ela podia ser ela mesma ou quem quisesse. Depois desse momento de auto-dedicação, Maria voltaria para uma rotina menos agradável: lavar a louça, varrer os terreiros da casa, dar comida aos porcos e lavar algumas peças de roupa.

Não mais resistindo ao sono Maria passou a mão pelo chão afastando alguns galhos caídos e se acomodou deitando-se. Suas pálpebras se fecharam e ela dormiu. Dormiu o seu sagrado sono de depois do almoço. Mais tarde seria acordada pela cadelinha do seu pai. Ela lhe lamberia as faces e se deitaria ao seu lado até que se levantasse e fosse para dentro de casa cuidar das tarefas.

Maria sonhou. Um sonho simples sem grandes pretensões:

sonhou que a cadelinha do seu pai, era sua irmã. E no seu sonhou verificou que eram muito parecidas. No sonho, brincavam como faziam acordadas, à margem do riacho seco. Brincavam de cobrir com os dedos as inúmeras linhas deixadas pelas rachaduras da terra seca. Maria ficava encantada com aquelas rachaduras, pois formavam desenhos engraçados e estranhos.  Tulipa – a cadelinha de seu pai - atravessava o riacho sobre as linhas e Maria admirava as voltas que seu corpo dava para conseguir acompanhar aqueles desenhos. A chuva era por demais boa e esperada por todos, trazia comida e água, mas levavam embora aquelas formas mágicas que faziam com que elas descobrissem figuras misteriosas. O consolo era que com a próxima seca, outros desenhos estariam lá para serem descobertos por elas. Maria não entendia como ela conseguia ver naquelas linhas tantas coisas conhecidas: vacas, galinhas, árvores, porcos. Acreditava que algum ser misterioso desenhava aquelas coisas para ela e Tulipa descobrirem. Aquilo era um mistério para Maria.

Acordou com Tulipa lhe lambendo o rosto. Sorriu para ela e a abraçou. Espreguiçou-se, olhou para o céu e levantou-se para mais uma tarde como todas as outras.



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A sesta num dia de sol
Seg, 18 de Janeiro de 2010

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Comentários (36)
  • Cilas_Medi
    avatar
    Poético e lírico. Gostei! Parabéns!
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Obrigada! Fiz esses contos nos tempos de colégio. Encontrei-os recentemente nuns cadernos antigos.
  • Santiago
    :love: :love: :love:
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Muito obrigada Santiago pela visita!
  • Abreu
    avatar
    Os sonhos embalando o viver...
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Muito obrigada Abreu, pelo comentário!
  • tania_martins
    avatar
    Isso aí. Abraços.
  • brunoresenderamos  - Oi colega
    avatar
    Uma prosa poética que mostra a falta de dinâmica e perspectivas de uma vida refletida na própria paisagem. As mudanças se davam num nível de pequenas articulações, ou realinhamentos providos pelo meio, assim como a vida da querida Maria e sua coadjuvante Tulipa. Ao olhamos ainda que uma pequena densidade social de seu texto, percebemos uma intertextualidade com o campo semântico do Mundo de Graciliano Ramos, que humaniza o cão e subumaniza as pessoas. Neste contexto dialogal das OBRAS, vê-se a cadela como o ser que desperta, que chama à realidade, como Baleia que direciona, corre atrás de alimento quando os homens ( Fabiano e família) ficam a mercê de sua inteligência canina. A aqui também o destaque para a sinestesia da cor que imprime sensações ao ver humano como na própria vida, mas isso é discussão que merece um aprofundamento mais especializado. Por enquanto é isso aí. Abraços Abraços
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Muitíssimo obrigada pelo seu comentário. Fiquei por demais lisonjeada. Abraços.
  • Niki_
    avatar
    Boa noite Luciene, delicia de ler, parabéns. :)
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Obrigada Niki! Fiquei feliz que tenha gostado. Abraços.
  • WanderMotta
    Muito bonito o seu conto... formam imagens belíssimas. Grande abraço.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Muito obrigada Wander. Abraços.
  • Nadi
    avatar
    Adorei teu conto. Fechou os olhos e sonhou, talvez um sonho já imaginado, tal a poesia nele descrita. Bjs
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Oi, Muitíssimo obrigada por ter lido e gostado do meu conto. Bjs.
  • seth
    avatar
    no mundo dos sonhos tudo é possível,hoje em dia muitas pessoas devem ter um sonho semelhante,já que amizade como a de "maria e tulipa",são cada vez mais raras entre humanos.abraços.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Obrigada Seth pelo seu comentário! Você tem toda razão. Os seres humanos estão ficando cada vez mais individualistas. Abraços.
  • LucelioGarcia
    Olá Luciene, Creio que todos nós já praticamos um sonho parecido com o de Maria, que por ser do interior e sem perspectivas, sonhou talvez o que tenha pedido quando acordada. É o contraste da vida de menina sem boneca que apenas quer ser feliz... Parabéns
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Obrigada Lucélio! Fico feliz que tenha gostado do meu conto. Abraços.
  • DiegoFernandes  - Diego Fernandes
    avatar
    Gostei muito. Adoro descrições de cores e você utiliza bastante. Parabéns.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Muito obrigada Diego! Fico feliz que tenha gostado. Um abraço.
  • rackel
    avatar
    É um esvair-se constante, uma introspecção necessária, tendo por companheira a terra e sua gama de tons. Extrai-se beleza da aridez, calma daquilo que é dolorido, equilíbrio manso entre os ciclos da natureza. Adorei.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Muito obrigada Rackel! Suas palavras me deixam lisonjeada. Um abraço.
  • AJO
    avatar
    Deslizou naturalmente no pensamento dos outros que tiveram o privilégio de ler teu texto. Cada um com seu comentário enriquecedor, lembrando de uma ou outra situação. No meu caso, lembrei-me de "Meus Verdes Anos - José Lins do Rego". Como já havia dito, mesmo que tenha sido concebido em seu tempo de colegial, cuidou de prender o leitor e o fez divagar em outra situação, num mundo que lhe fora apresentado num conto... e com muita competência. Parabéns e, claro, estrelas. Beijos AJO
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Muito obrigada Ajo! Suas palavras me alegram e me estimulam a continuar. Um beijo.
  • renato_ledo
    avatar
    Que sesta boa a de Maria! Bocejei! Bjs
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Era uma tarde preguiçosa... (risos)! Bjs.
  • Brisa
    Luciene...adorei ler teu texto...é lindo...é magico!
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Muito obrigada! Um abraço.
  • Aguiar Montes
    MUITO BONS OS SEUS CONTOS. cHEIOS DE LIRISMO. PARABÉNS.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Obrigada Aguiar Montes. Fico feliz que tenha gostado. Abraços.
  • gilcalmon
    avatar
    Delicia de mini conto Lú. Certa vez eu disse que gostava muito do seu estilo literário. Muito bom. Adorei. 5 estrelas. Volto a te ler em breve. Leia: A Arte de Escrever.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Obrigada Gil! Aprecio muito suas palavras. Vou ler sim A Arte de Escrever. Abraços.
  • Pamaro
    avatar
    Conto agradável de ler. Uma curiosidade: essa maneira de Maria interpretar as linhas da terra esturricada e rachada vendo figuras, me fez lembrar dos testes psicológicos de Rorschach. Interpretar manchas, sonhos, tem seu valor poético, mas também científico. Quanto à Tulipa, também tenho um cão labrador (grande e pesado) que, diariamente, me dá banho, lambendo meu rosto. Cães, nossos melhores amigos, que nos lambem desisteressadamente. De minha parte, mando-lhe , além das estrelas, um grande beijo no coração.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Pamaro! Suas palavras me aquecem o coração. Falo sério, sem exagero! É bom que as pessoas leem o que escrevemos e fazem considerações. Um grande abraço.
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